Fé, Liberdade e Razão
Com alguma frequência
observa-se certas correntes ateísticas mais radicais tecerem críticas
contundentes e apaixonadas à Fé, principalmente à Fé Cristã, dominante
no ocidente. Costuma se alegar que a Fé escraviza o pensamento humano e
subjuga os menos favorecidos. Evidentemente, essa opinião e a liberdade
de expressá-la não deve, a priori, ser motivo de censura, mas vale a
pena refletirmos um pouco sobre as relações existentes entre Fé,
Liberdade e Razão. Esse triângulo encerra relações sutis que, na maior
das vezes não conseguimos perceber muito bem.
Vamos retroceder no
tempo. Vamos imaginar a vida de nosso tataravô peludo metido em um
buraco qualquer para se esconder de uma tempestade ou, quem sabe, na
entrada de sua toca admirando o céu cheio de estrelas cintilantes em uma
noite calma e tépida. Nosso tataravô, apesar de não ser muito esperto,
já sabia fazer algumas caretas e mostrar aquele ar de quem está com um
ponto de interrogação desenhado na testa. Que esperar dele? Um projeto
de pesquisa sobre o clima submetido ao Ministério das Cavernas e
Petrologia?
Obviamente, a única
atitude possível ao nosso tataravô e seus conterrâneos seria da mais
pura admiração e respeito pelo desconhecido. Nascia assim uma atitude
mista de indagação e admiração perante um Mundo selvagem, cheio de
perigos e surpresas incompreensíveis. Nascia assim a primeira
manifestação da inteligência humana, semente de uma elaboração posterior
mais complexa onde passamos a imaginar explicações para os fenômenos
maravilhosos e assustadores que nos cercavam. A Religião ou a Fé foi o
desabrochar da inteligência humana.
No contexto
histórico, pode-se dizer que Religião é a mãe da Filosofia e da
Ciência.. A necessidade de dar sentido às coisas que nos cercam ou à
nossa própria existência é inerente à nossa natureza. A Ciência pode nos
explicar o funcionamento biológico e físico da vida mas, infelizmente,
não consegue nos explicar o sentido da vida, o porque do sofrimento ou
da felicidade. Aliás, não é papel da Ciência explicar essas coisas. Por
todos esses motivos não cabe criticarmos a Religião em si. Podemos e
devemos criticar certos prosélitos e suas interpretações radicalizadas
ou tendenciosas, mas não a Religião em si, seja ela qual for. É o mesmo
que ocorre em outros setores do conhecimento. Não cabe atacarmos a
Ciência e todos os cientistas só porque existe a bomba atômica.
Não existe, portanto,
nenhum princípio ou semente de escravidão intelectual ou muleta para
fracos e oprimidos implícitos na Religião. Ao contrário, o Acaso (Fé dos
Ateus), me parece um constrangimento intelectual realmente severo. O
Acaso é sufocante, impede-nos de especular e conjeturar sobre o sentido
do Universo. Tudo bem se o Universo não tiver sentido nenhum, mas
prefiro descobrir isso buscando livremente por um princípio inteligente
superior (dogma Divino), que o constrangimento de parar de procurar,
aceitando passivamente o dogma do Acaso. Quanto às mazelas e injustiças
sociais, vale refletir que na natureza nada se cria nem nada se perde,
mas tudo se transforma. O bem e o mal, o belo e o feio são apenas
transformações vistas sob uma ótica humana ainda muito estreita.
[C.Boschetti - Brasil
(Janeiro/2004)]