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Ciência e Sociedade

O Jornal da Ciência tem sido um veículo bastante ativo na divulgação de notícias, temas e polêmicas em todas as áreas do conhecimento. Não sei se a abrangência deste veículo vai além dos limites da comunidade científica brasileira, mas se não vai, faz-se mister todo o esforço possível para que isto venha a ocorrer da forma mais rápida e ampla possível. Pois além do analfabetismo tradicional, é cada vez mais inquietante duas outras formas de analfabetismo, o já famoso analfabetismo digital, e um terceiro menos falado, mas talvez o mais importante de todos, o analfabetismo Científico-Filosófico.

Tentarei ao longo deste texto explicar um pouco melhor o que quero dizer. Desde já peço desculpas pela extensão do artigo e pelos muitos erros que certamente cometerei. Aliás, acho apropriado dizer, a divulgação de assuntos filosóficos e científicos tem dois grandes desafios. Em primeiro lugar, no atual contexto, tempo é algo cada vez mais escasso. As taxas de câmbio, o crime do dia ou o escândalo político do momento, por força das circunstâncias, têm sempre prioridade sobre os assuntos mais nobres e que melhor nutririam o espírito humano. Por outro lado, acho muito difícil, mesmo para os mestres na arte de escrever, divulgar Ciência e Filosofia em poucas e rápidas palavras. Além disto, quem escreve ou fala sobre qualquer tema de interesse mais geral, em qualquer campo do conhecimento, de certo modo, é também vítima do próprio analfabetismo científico-filosófico que tenta combater, seja pelo fator tempo, seja pelo enorme volume de informações ou seja pelo elevado grau de interdisciplinaridade dos problemas envolvidos. Mas nada disto deve nos impedir de tentar.

Dentre outros, um dos fatores que me motivou a levantar este assunto, foram algumas matérias em torno da polêmica “Criacionismo versus Design Inteligente versus Evolução”, apresentadas em algumas edições passadas do JC. Este tema se confunde com outro também relevante e atual no campo da Bioengenharia, ou seja, a clonagem de células tronco. Não pretendo entrar no âmago desses debates, embora seja inevitável emitir alguma opinião a respeito. Mas o que quero é especular um pouco sobre o pano de fundo atrás dessas polêmicas, suas causas e motivações. Acho que não adianta muito defender esta ou aquela posição sem antes tentar entender por que, a par de todas as conquistas científicas e de todo o avanço tecnológico, a Ciência ainda se mantém distante e hermética para a imensa maioria? Por que as conquistas, os benefícios e as questões já respondidas parecem afastar-se cada vez mais das aflições e dos anseios das pessoas comuns, sujeitando-as a manobras de toda sorte? Será que nós, professores, pesquisadores, cientistas e divulgadores de ciência  não estamos deixando de fazer algo a respeito? Será que a corrida atrás dos indicadores e do financiamento não estarão ensejando a elitização e o hermetismo cada vez maior da Ciência?

Será que não está na hora de nos preocuparmos um pouco mais com as expectativas do Homem e não apenas com as expectativas dos agentes econômicos? Quais são as expectativas da Sociedade com relação à Ciência e aos cientistas? Que tipo de anseios a Ciência não está conseguindo satisfazer? Quais respostas a Ciência está deixando de dar à Sociedade? Por que? Quais são os entraves? Será que a Ciência tem resposta para tudo? Ou será que os limites da Ciência não estão sendo corretamente apresentados ao grande público? Ou melhor ainda, será que o próprio conceito de Ciência não está mistificado e dogmatizado perante o público e, talvez, até mesmo para uma parcela menos atenta da própria comunidade? Afinal de contas o que é e para que serve a Ciência nos dias de hoje?

Permitam-me um passeio imaginário ao passado remoto. Como já disse, também sou uma vítima do analfabetismo Científico-Filosófico e, por isto mesmo, não tenho a pretensão de dar aqui muitas respostas, mas considero-me capaz e na obrigação de fazer muitas perguntas. Não podemos nos esquecer que vivemos em um Mundo cheio de problemas e mazelas e que a vida de milhões ou até mesmo bilhões de seres humanos é miserável e dolorosa, muitas vezes nem tão miserável, mas nem por isso menos dolorosa. Toda essa gente precisa se agarrar em algo para tentar viver uma “vida normal”. Algo que a Ciência, no atual contexto, parece longe de dar a elas. Mas voltemos ao nosso passeio pelo passado. Vou precisar afirmar uma posição pessoal que, infelizmente, ainda não é um consenso Universal. Peço paciência e compreensão aos que não concordarem. 

Vamos tentar imaginar nosso tataravô peludo, andando meio desajeitado com nossa tataravó peluda pelo meio da mata. Vamos imaginar que após um longo e cansativo dia atrás do almoço, nosso tataravô resolve aproveitar o bom tempo e a varanda de sua recém adquirida caverna, para admirar a lua cheia de um anoitecer tépido e calmo.

Sei que alguns não concordam que nosso tataravô era peludo e desajeitado, pois entendem que isso vai contra suas convicções filosófico-religiosas. Mas é essa a conclusão que a Ciência nos oferece após mais de um século de exaustivos e cuidadosos estudos. Seria falsidade ideológica de minha parte não compactuar com essa posição. Existem, claro, muitas dúvidas e lacunas quanto aos processos e elos que ligam nosso tataravô Macaco ao Homo‑Sapiens‑Sapiens moderno, mas isso não invalida a essência da idéia principal, ou seja, a teoria da Evolução. Vou mais longe ainda, também tenho minhas convicções filosófico-religiosas (sou espírita) e gostaria de tentar mostrar que o diálogo entre Religião e Ciência ou entre Fé e Razão não são coisas impossíveis e impensáveis como podem parecer à primeira vista. Precisamos apenas conhecer bem os limites de cada área e aprender a respeitar esses limites. Acho que nosso tataravô pode nos ajudar neste sentido.

Vamos admitir que nosso tataravô, mesmo sem saber produzir o fogo, já sabia lidar com o que era proporcionado pelo “deus do Trovão”. Vamos admitir também que ele era esperto o suficiente para se fazer algumas indagações do tipo – “O que será aquela bola de fogo no céu? Por que ela é menos quente e brilhante que a bola de fogo do dia claro? Quem segura essas bolas de fogo?” – e por ai vai outras tantas perguntas que nosso tataravô deveria se fazer em seus breves e raros fragmentos de reflexão. O que é que deveríamos esperar dele? Medo e respeito pelo desconhecido ou um projeto de pesquisa em Astrofísica para o Ministério da Pedra-Lascada?

Devemos admitir, foi o medo, ou o respeito, ou a curiosidade, ou a necessidade ou um pouco de tudo isso, a força motora do desenvolvimento humano. Com sua capacidade inata para formular perguntas e tentar soluções, o homem primitivo encontrou na Religião a primeira forma estruturada para tentar compreender o Mundo e o seu papel dentro dele. Não havia outra possibilidade. Quer queiramos ou não, a Religião foi mãe da Ciência e da Filosofia. Acho que só por isso devemos algum respeito à Religião, do mesmo modo que um filho deve respeito a seus pais mesmo que discorde deles em vários aspectos da vida. Mas os motivos para respeito não param ai. A Ciência tem seus limites que, felizmente, para o bem da própria Ciência, encontram-se bem aquém dos limites da imaginação humana. É a partir dessa fronteira onde a Ciência não pode avançar sob risco de se descaracterizar, que a Religião tem seu espaço.

Essa fronteira precisa ser mais bem explicada ao público em geral. Acho inclusive que nós da comunidade, também deveríamos examinar com mais cuidado essa fronteira para podermos saber informar o público. Isso evitaria falsas expectativas do homem com relação à Ciência e, portanto, evitaria desilusões desnecessárias. Além disto, a compreensão dessa fronteira poderia ser o começo de posições menos radicalizadas que só servem para dificultar ainda mais a Paz e a Ordem Social.

Vamos começar com a questão central do aparente conflito entre Ciência e Religião – Deus. É pena que muitas facções religiosas de caráter Ateísta Radical, em nome de combaterem uma falsidade, acabam por patrocinar uma outra falsidade, a de que a Ciência tem provas “claras e irrefutáveis” de que Deus não existe. Isso é um grande equívoco que dogmatiza a Ciência e não traz nenhum benefício nem para a Filosofia nem para a Religião, além de acirrar a disputa com facções radicais de caráter Teísta

É até compreensível a razão de posições dessa natureza. Afinal de contas, em nome de Deus o homem já fez e continua fazendo muita besteira. Mas não é esta a estratégia correta para mudarmos o rumo das coisas, mesmo porque, em nome de quase tudo, incluindo a Ciência o Progresso e a Paz, o homem também já fez e continua fazendo muita besteira. Os problemas ambientais, climáticos, e as “guerras preventivas” estão ai para provar isto. É fundamental que o público saiba que a Boa Ciência pouco ou nada pode dizer a respeito da Existência ou da Inexistência de Deus. Isso seria querer usar a Ciência fora dos seus limites de validade. Seria querer extrapolar os critérios e métodos habituais da Ciência. Esse é um primeiro ponto que precisa ser devidamente esclarecido ao público.

A questão não se resume apenas a estabelecer fronteiras e informar o leigo. Ao contrário, acredito que a solução dos grandes problemas que afligem a humanidade, dependem cada vez mais do exercício pleno da cidadania. Isso só ocorrerá dentro de uma Sociedade bem informada e que tenha confiança na competência e honestidade de seus agentes de poder e de conhecimento.

A Ciência tem avançado rapidamente por vários campos que sempre foram tabu para a Sociedade. É preciso uma abordagem estratégica, sutil, inteligente e honesta desses temas, caso contrário, estaremos tentando trocar um tabu popular e milenar por um dogma ideológico, pseudocientífico e feito às pressas pelo utilitarismo imediatista que assola a Ciência.

É importante mostrar ao público que a Ciência não desafia, nem nunca desafiou ou desafiará Deus. Ciência e Religião são simplesmente aspectos ou áreas diferentes do pensamento humano. Não existe conflito entre Ciência e Religião, exceto aqueles motivados por interesses menores iguais a tantos outros que infestam o tecido social. Um cientista, a exemplo de qualquer outro indivíduo, também tem suas convicções religiosas, às vezes de caráter Teísta e outras vezes de caráter Ateísta. Para a Ciência, tanto o Teísmo quanto o Ateísmo são posições dogmáticas. Existe ainda o Agnosticismo que advoga uma espécie de neutralidade entre Ateísmo e Teísmo. De qualquer modo, desde que o cientista saiba tratar cada coisa no seu devido lugar, isto não é um problema, ao contrário, é próprio da natureza humana. O problema surge com o radicalismo, tanto o Teísta quanto o Ateísta. O problema não está na convicção religiosa em si, mas sim na pretensa e exclusiva posse da Verdade.

São inúmeras as áreas sensíveis que mexem com a curiosidade e ao mesmo tempo com o medo e a desconfiança, ou seja, com os tabus da Sociedade. Os temas vão desde a Clonagem, passando pela Evolução das Espécies até a existência de Vida Extraterrestre, mas o cerne da questão está sempre relacionado ao Criador. É natural que seja assim. A Ciência não pode explicar tudo. Sempre haverá espaço para a Religiosidade. E não há nada de errado com isto. O que não pode haver é a invasão de domínio. A Ciência e a Religião têm cada qual o seu domínio próprio. É neste ponto que Cientistas e Filósofos precisam esclarecer o publico. O tema é complicado e precisa ser abordado com muito cuidado, pois estamos sobre uma fronteira sensível e complexa do pensamento humano.

Permitam-me errar para tentar acertar. Vamos tomar a Teoria da Evolução como exemplo. A primeira coisa que precisa ser elucidada ao público é o significado de uma Teoria Científica. A palavra “Teoria” é traiçoeira e induz o leigo a supor que uma Teoria Científica é a mesma coisa que uma hipótese subjetiva levantada por alguém ou por um pequeno grupo de pessoas. Isso é um grande equívoco. Uma Teoria Científica é como uma bola de neve. É todo um conjunto de conceitos e idéias intercaladas, coerentes e muito bem estabelecidas em cima de fatos e de outros conceitos e idéias igualmente bem estabelecidos e suportados por outros fatos e por outras idéias e assim vai numa sucessiva e crescente expansão. Essa Teoria é boa e válida enquanto explicar de modo racional os fatos já conhecidos e permitir prever, isto é, inferir com base em determinadas condições, a provável ocorrência de fatos ainda desconhecidos. Qualquer fato novo que não possa ser explicado pela Teoria nos leva a apenas duas possíveis atitudes: Ou o fato não foi observado e avaliado corretamente ou a Teoria tem um furo e precisa ser revista. É justamente aqui que devemos redobrar os cuidados para evitar que Ciência e Religião se desafiem desnecessariamente.

A Teoria da Evolução nunca afirmou nem pode afirmar que não Existe Deus, o Criador. Esta afirmação seria dogmática e fora da autoridade Científica. A Teoria da Evolução apenas mostra e muito bem, como as espécies evoluíram e continuam evoluindo, biologicamente, sobre o planeta Terra. São fatos que não podem ser contraditados de modo subjetivo por convicções Religiosas pessoais. É importante notarmos o que pode e o que não pode ser dito pela Ciência e o que pode e o que não pode ser dito pela Religião. Assim como a Ciência não pode negar a Existência do Criador, a Religião também não pode negar o que a Ciência já elucidou. Isso seria invasão de domínio. A Terra tem mais de 4 bilhões de anos. Esta é uma conclusão científica corroborada por inúmeros fatos. A Terra de 6 mil anos é uma alegoria Bíblica que deve ser reinterpretada. Para isto não precisamos ridicularizar a Bíblia, pois a mesma tem seu valor histórico e cultural, mas ela precisa ser vista sob um outro prisma mais bem elaborado. Não vou me alongar neste tema pois me faltam subsídios tanto biológicos quanto bíblicos para tal. Mas, com certeza, o pessoal da área de biologia, pode detalhar muito melhor a Teoria da Evolução, mostrando inclusive a problemática das primeiras moléculas orgânicas que surgiram sobre o planeta, e explicar os diversos pontos que a Ciência já elucidou e os pontos onde existe espaço para uma reflexão Filosófico-Religiosa amadurecida e aberta.

Outro tema bastante instigante é o da origem do Universo. O Modelo Padrão – espero que o pessoal da área me perdoe e me corrija se necessário, pois acho que ainda é um Modelo e não uma Teoria – indica que a gênese do Universo deu-se a partir de uma grande explosão, o “Big-Bang”, ocorrida há 15 ou 20 bilhões de anos. Novamente, a Cosmologia não afirma que foi ou não Deus o autor dessa Explosão. Isso seria dogmático e estaria fora dos domínios da Ciência. Existem inúmeros indícios de que houve tal explosão. Este é o domínio da Ciência. Por outro lado, não existe nada que permita à Ciência especular sobre os instantes anteriores ao dessa explosão ou mesmo o instante zero dessa Explosão. Neste instante “zero”, acredita-se que a Física que conhecemos hoje deveria ser diferente. Este é o domínio da Religião. Como se pode ver, é possível uma convivência construtiva entre a Boa Ciência e a Boa Religião, cada qual dentro do seu domínio. A Ciência ampliando os horizontes do conhecimento humano e a Religião olhando para além desse horizonte, completando e saciando a eterna sede humana de saber de Onde Viemos, Quem Somos e para Onde Vamos?

Considero simplismo querer tratar a Religião como mera crendice em fenômenos sobrenaturais. Se a Ciência e o Homem evoluíram, o pensamento humano também evoluiu. É certo que a maioria das pessoas ainda não consegue exprimir ou fundamentar suas convicções de modo mais elaborado e acaba por lançar mão de acessórios ingênuos. Mas no fundo, de forma latente, todos nós, intelectuais ou ignorantes, buscamos de algum modo preencher o vácuo que o conhecimento positivista não consegue preencher.

Essa sede Filosófico-Religiosa inerente ao homem, muitas vezes pode-se transformar em tormento. A curiosidade ou insatisfação intelectual é geral e independente de posição social e grau de instrução. Já o medo, a desconfiança e os tabus atingem sobretudo os mais fracos e desinformados. Que esperar de um infeliz miserável cujo único alento que lhe resta neste mundo cão é a “possibilidade” de um futuro venturoso proporcionado pela justiça Divina?

Não é papel da Ciência endossar ou reprovar as crenças desse indivíduo, ao contrário, cabe à Ciência lutar para que indivíduos como esses tenham no futuro, condições para optar e fundamentar suas convicções filosófico-religiosas com base apenas na sede filosófica e não no medo, na desconfiança e no desengano. Acho antiético e anticientífico trocar a Esperança Religiosa ou Dogma Religioso de uma pessoa pelo Dogma do Nada. O Dogma do Nada ou do Acaso também merece respeito, mas tanto quanto o Dogma Divino, nem mais nem menos. É isto que precisa ficar claro ao público. A desnecessária, absurda e anticientífica ridicularização das Crenças Teístas não nos levam a lugar algum.

Não importa o quanto a Ciência amplie os seus limites, sempre haverá o desconhecido além do horizonte. Além dessa fronteira, somente a Religião e a Filosofia podem penetrar. É próprio da imaginação humana ignorar regras e adentrar, cada um a seu modo, as fronteiras do desconhecido. Acho que essa é a Verdadeira e Sagrada Liberdade de Pensamento que nos empurra para frente e para o futuro. Naturalmente, tudo que foi colocado aqui pressupõe uma Convicção Religiosa Aberta e de caráter Ecumênico. Para as posições mais ortodoxas, sem querer desmerecê-las, existem dificuldades adicionais a serem superadas.

O Jornal da Ciência poderia ser um agente patrocinador e divulgador de debates e abordagens neste sentido, trazendo informação e subsídios para que a Sociedade tenha mais meios de se posicionar frente aos problemas cada vez mais complexos da atualidade. Poderia haver uma seção especial no Jornal, um acervo catalogado por tema. Um banco de dados acessível a todos, estudantes, professores, pesquisadores ou qualquer outro interessado. O governo também deveria dar maior patrocínio e prestígio aos livros e artigos de divulgação científica e filosófica pois, muito mais que Poder, o Conhecimento significa a própria Dignidade e Liberdade Humanas.

Cesar Boschetti - 28/02/2005

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