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Eles se lembrarão que nós os esquecemos

A história do homem e da evolução do pensamento humano, desde os tempos em que pulávamos de galho em galho pelas matas, ainda virgens, tem sido uma formidável sucessão de equívocos e frustrações. Apesar do enorme progresso científico e tecnológico alcançados, somos ainda muito mais animais que racionais. A filosofia do homem moderno parece resumir-se a achar que o futuro é hoje e o passado apenas uma lembrança sem importância. Deus ainda é temido por alguns, antropomorfizado por outros e abominado por outros tantos. De um lado a Ciência, na sua acepção plena, tenta não desaparecer sob o frenesi mercantilista de uma Tecnociência escrava do Capital. E do outro lado, as Religiões sucumbem sobre suas bases anacrônicas, caducas e igualmente submissas ao mesmo e indisfarçável Deus Mercado. Mas é assim que caminha a humanidade. Chega a ser irônico que tenhamos decifrado a Teoria da Evolução ao mesmo tempo em que nossas atitudes parecem contestá-la. Além de não sermos os melhores adaptados ao Meio, cada vez mais fazemos do Meio algo menos propício à nossa existência.

O Planeta já ultrapassou diversos limites e em vários setores tudo indica não haver mais possibilidade de reversão no curto e médio prazos. Todavia muito pouco ou nada foi feito. Sem dúvida as futuras gerações enfrentarão dificuldades nos setores energético, climático, bacteriológico, hídrico e, provavelmente, alimentar. Apesar da biotecnologia, os interesses em jogo nos levam a antever problemas com a qualidade e propriedades da alimentação.

- Sim! Com certeza ficaremos na história. Seremos muito bem lembrados! Seremos os verdadeiros bárbaros da história da humanidade. A Tecnociência como fonte de Poder virou dogma, relegando a segundo plano a Ciência que alimenta a alma. A pulsão interior pelo saber, expressão maior do intelecto humano foi rebaixada à condição de simples estorvo ao “progresso” técnico-econômico.

Com o sucesso da Ciência Clássica em meados do século XIX, o Mundo assistiu maravilhado e desconfiado, ao início da derrocada dos velhos dogmas.  Era o positivismo que nascia para libertar o espírito humano das amarras instituídas pela Ortodoxia Religiosa voltada para a dominação. Mas com as revoluções e inovações tecnológicas recentes, que demonstraram ser o Conhecimento a principal fonte de Poder e Dinheiro, o sonho de um Mundo evoluído e livre de dogmas anti-racionais e voltados apenas ao domínio das massas, evaporou-se. A apologia ao Conhecimento como fonte de Poder muito mais que como fonte de Saber, é a Seita “científica” dos novos tempos.

O Dogma do Deus, Transcendente, Metafísico e isento de conceitos antropomórficos, mesmo estando fora do racional humano, não conflita com a razão nem com a Ciência. Ao contrário, oferece-nos excelentes oportunidades de reflexão e especulação intelectual. Um Dogma, por definição, encontra-se fora dos limites da Ciência e do Racional, é Incognoscível. Entretanto, não necessariamente, isto o coloca em choque com a Ciência ou lhe subtrai valor Filosófico enquanto hipótese a ser analisada em suas consequências e desdobramentos. Aliás, um Deus antropomorfizado e passível de racionalização seria algo extremamente decepcionante e pequeno. Onde ficaria o desafio da Metafísica? Onde iria parar aquela pulsão interior que nos torna insaciáveis frente aos mistérios do Universo? Onde ficaria a nossa eterna busca pelos porquês? Já os Dogmas anti-racionais que, para o nosso propósito se refere àqueles muito mais tendenciosos que ingênuos, não apenas conflitam com a razão, contradizendo fatos, como ainda ensejam manifestações retrógradas e inseguras, objetivando apenas a dominação do homem e não sua elevação e libertação espiritual. Constituem a fonte principal do fanatismo religioso cego que rebaixa o homem, a Religião e o próprio Deus.

É nesta mesma linha equivocada que a Tecnociência vem se pautando. A certeza dogmática de sua infalibilidade no tocante às soluções de todos os problemas da biosfera terrestre e, sobretudo, do homem, está nos levando a subestimar as consequências deletérias ao meio ambiente, promovidas pela poluição e pelo consumismo desvairado e irracional dos recursos naturais. A situação é complexa e grave. Sob a ótica desse Materialismo dogmático, o futuro de nossos bisnetos é algo muito distante e transcendente para que possamos nos ocupar seriamente com ele. E, por outro lado, a certeza dogmática de que a Tecnociência se encarregará de prover as futuras gerações com todas as ferramentas necessárias para consertar todos os nossos atuais desatinos está levando a humanidade ao suicídio. O alarme já está soando em vários setores, mas, infelizmente, a surdez é parceira desse fanatismo materialista e misoneísta.

A inevitável decepção do homem com este dogma absurdo de que a Tecnociência, por si só, será capaz de resolver todos os problemas da humanidade, suscitará em futuro próximo um retrocesso à Intolerância e ao obscurantismo. É uma consequência natural da decepção. Se já nos dias de hoje as massas sofridas não conseguem respostas da parte da Ciência aos seus sofrimentos e dores da alma, que se poderá dizer de um futuro com escassez aguda de água, energia, ar limpo, com um clima cada vez mais agressivo e incontrolável, além de pandemias causadas por vírus e bactérias mais resistentes e renitentes.

Essa apologia à Tecnociência para o Poder, além da consequente decepção a caminho, passa a ensejar também um desestímulo às novas gerações para o estudo mais profundo, desinteressado, autocrítico, criativo e impulsionado pela sede de Saber. O estudo passa a ser apenas uma moeda de troca, um amontoado de informações tendenciosas, viciadas e superficiais, visando a transformação pura e simples de conhecimento em dinheiro. Estamos construindo uma herança sem herdeiros. Sem dúvida, tudo isto caracteriza bem uma curiosa concepção materialista de “progresso”.

Naturalmente, seria ingênuo e leviano colocar todo o peso dos problemas atuais sobre pilar do conflito Ciência-Religião. Mas, não se pode deixar de notar que muitas questões importantes da atualidade, cada vez mais passam por essa dicotomia do pensamento humano. Não podemos mais ignorar o peso social, psicológico e filosófico desse conflito. E a primeira questão que surge é justamente esta: - Existe, de fato, um conflito Ciência-Religião? Será que não se trata apenas de uma falta de melhor compreensão sobre o que exatamente vem a ser Ciência e o que exatamente vem a ser Religião? Será que não estamos apenas olhando para conflitos menores entre fanáticos de ambos os lados? Será que não estamos vendo apenas uma disputa pelo Poder Econômico e pelo Controle das Massas? Uma disputa estúpida e irracional na qual o homem só tem a perder em termos de progresso material e moral.

Acho que está na hora da verdadeira Ciência e da verdadeira Religião se aproximarem. Não há porque impedir esta aproximação. É óbvio que não se preconiza aqui a consecução de pesquisas científicas com reflexões metafísicas ou, caso se prefira, com orações, nem orações com métodos científicos. A união se daria apenas no plano ético e no objetivo comum de promover o avanço e ampliação do conhecimento humano, pois é obvio que, na essência pura, desinteressada e despida de preconceitos, tanto a Ciência quanto a Religião busca a Verdade, apenas com métodos e procedimentos diversos e que, obviamente, não precisam nem devem se misturar.

Talvez seja melhor e mais confortável, substituirmos o termo Religião por algo mais geral e sem conexão direta com as velhas e ortodoxas concepções dogmáticas anti-racionais. Vamos falar em Religiosidade. Esse sentimento interior puro que não se satisfaz apenas com o “como”, mas quer conhecer também o “por que”. Não sendo um método, mas sim uma pulsão pelo Saber, pelo “De onde venho?”, “Quem sou?”, “Para onde vou?”, essa Religiosidade pode perfeitamente transitar entre a Ciência e a Religião. Aliás, Einstein referia-se com frequência a uma Religiosidade Cósmica e como seria importante a harmonia entre a Ciência e essa Religiosidade.

A retaliação pura e simples do pensamento religioso, buscando ridicularizar esta ou aquela doutrina, ou simplesmente generalizando como se todas as formas de Religião fossem iguais, não é uma estratégia inteligente. Esta atitude só faz crescer a discórdia e a divisão quando o futuro reclama união e harmonia. As religiões, as crenças, os rituais, são tão antigos quanto à própria humanidade. O sentimento religioso foi a primeira manifestação do intelecto humano. Foi a primeira tentativa do homem-macaco de compreender o mundo ao seu redor. O pensamento científico, só recentemente, germinou a partir dessa pulsão primordial de religação com o Criador, na acepção Religiosa, ou de busca pelas origens, na acepção Filosófica.

Não se deve pura e simplesmente rechaçar a Religião como se esta, por definição, fosse a antítese da luz. Essa atitude é tão anticientífica quanto ridícula. A crítica aos dogmas anti-racionais e aos fanáticos tendenciosos é válida e necessária, mas precisa pautar-se pela ética e pela isenção. A crítica, no mínimo, precisa cuidar para não cair no mesmo erro do objeto criticado. O grande obstáculo ao progresso do homem não está na Religião, mas sim no fanatismo. Um fanatismo que impregna não somente os religiosos da Religião, mas também os religiosos da Tecnociência para o Poder. A estratégia para o futuro está justamente em sermos capazes de compreender melhor a natureza, a complexidade e a beleza do intelecto humano, suas aspirações e questionamentos metafísicos. Essas questões, muito mais que as econômicas, são a verdadeira mola do progresso humano. Precisamos deixar de lado os preconceitos e essa idolatria pelo Deus Mercado. O intelecto mais treinado deve ser capaz de conduzir o intelecto menos treinado e não querer rebaixá-lo ou subjugá-lo.

Precisamos aprender a usufruir do choque de idéias como desafio e fermento de progresso. Não se pode mais fazer do embate das idéias um embate mesquinho e pequeno de personalidades. Se admitirmos o Prozac como uma boa muleta química para os que podem pagar, porque deveríamos combater e inferiorizar as muletas Religiosas, gratuitas e acessíveis a todos? Da mesma forma, o pensamento Religioso deve também avançar, mas deve fazê-lo sem contradizer fatos e verdades científicas, que só rebaixariam Deus, caso contrário, a Ciência marchará sozinha em direção ao futuro.

CBoschetti - publicado no JC e-mail 2899, de 22 de Novembro de 2005
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