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Open source & open-mind

Este texto é uma sequência natural do artigo “CL10 - Conectiva Linux 10 - Impressões de um usuário comum” - publicado nos endereços abaixo:

http://www.las.inpe.br/~cesar/miudos/filosofia/linux_cl10.htm
http://guiadohardware.net/news/2004/08/cl10.htm
http://www.linuxit.com.br/section-viewarticle-622.html
http://www.ccl-br.com.br/archives/000096.html#more

Minha intenção original era prosseguir analisando o CL10 depois de instalado, anotando os problemas de configuração, as qualidades e defeitos do sistema. O objetivo era apenas apresentar algumas sugestões que, do ponto de vista de um usuário comum, possam tornar o sistema mais amigável.  Diante de algumas manifestações decorrentes do primeiro artigo, resolvi ampliar a discussão, abordando alguns aspectos que, no meu entender, precisam ser mais bem compreendidos.

Para minha satisfação, 56% das manifestações que chegaram ao meu conhecimento concordaram quase que integralmente com minhas críticas e reclamações; 37% concordaram com ressalvas. E, finalmente, 7% foram de total desacato. Manifestações grosseiras e muito mal educadas, denotando um profundo radicalismo. É claro que essa estatística não é perfeita, pois se trata de uma amostragem pequena e muito localizada no tempo, mas foi o que consegui.

É uma pena a existência desses 7%. Não pela discordância. O problema não é apenas de divergência de opinião, natural em qualquer setor. O problema aqui é de fundamentalismo. É como se o Linux fosse um videogame cujo objetivo único é destruir o Sistema Operacional inimigo ou qualquer outro que não pense dessa forma.

-Vamos acordar pessoal ! O Linux é muito mais que um videogame. Essa postura extremista deprecia o Sistema e afasta os novos usuários. Ainda bem que são apenas 7%, mas o ideal para o Linux é que fosse zero.

No bloco dos 37% que fizeram ressalvas, felizmente educadas, nota-se uma certa tendência para exagerar nas falhas do Sistema Windows e uma complacência mais dilatada com as falhas do Linux. Isso é perfeitamente compreensível. Muitos aficionados vêm o seu sistema como um filho. Mas é muito importante manter uma certa autocrítica nesse ponto.

Gostaria de enfatizar que não estou atrás de aclamação ou aceitação plena de minhas opiniões. Estou apenas querendo colaborar com a divulgação do Linux. Como não sou um aficionado e sim um mero interessado em usar o sistema e vê-lo acessível a todos, acho que consigo ver as coisas com um pouco mais de neutralidade.

No meu entender, uma postura revanchista contra Sistemas Proprietários ou contra quem venha a apontar algumas falhas do Linux não é uma boa estratégia de divulgação. Acho importante evitar as referências depreciativas, pois isto acaba passando a impressão de inveja e inconformismo pelo sucesso alheio.

A comunidade “opensource” deve concentrar-se na discussão aberta dos problemas existentes, evitando as comparações passionais e dedicando-se apenas ao aprimoramento do Sistema. Caso contrário estará fazendo propaganda para a Microsoft. O revanchismo, a intolerância e o extremismo fazem um péssimo marketing.

Esses aspectos são importantes porque por traz do “open source” ou software livre, há muito mais coisas além do Linux. A discussão envolve aspectos políticos, econômicos e filosóficos, nem sempre visíveis pela maioria dos envolvidos.

Para começar, devemos perceber que Conhecimento, Poder e Dinheiro estão intimamente relacionados, ou melhor, intimamente comprometidos. Esse comprometimento não é ruim por definição. Mas até onde ele deve ir? Como evitar que o estímulo saudável e inteligente ao lucro honesto se transforme em motor da ganância e das desigualdades sociais? Refletindo-se com certo cuidado, podemos ver que essas questões não podem ser tratadas de modo simplista e passional.

Vamos ver como foi que se deu o progresso científico e tecnológico da humanidade. Um dos pilares do método cientifico, responsável pelo avanço da ciência, é a submissão de todo e qualquer trabalho científico à análise e crítica da comunidade científica. São as publicações em meios especializados, mas de domínio público, que permitem que uma idéia qualquer desenvolvida na China seja analisada, testada e criticada na Inglaterra ou em qualquer outro centro. Isso cria uma dinâmica de aprovação, reprovação e realimentação de idéias, cujo resultado é um crescente aprimoramento do conhecimento adquirido bem como sua ampliação para novos horizontes.

Vamos olhar o reflexo prático desse progresso no Mercado. Tomemos por exemplo o setor alimentício e a Química. Os conhecimentos de Química estão abertos e disponíveis em qualquer Universidade Pública ou Privada. Mas, evidentemente, a receita da Coca-cola é mantida debaixo de sete chaves. Isso não impede que a Pepsi ou a Antártica desenvolva outros refrigerantes similares com base no mesmo conhecimento de Química utilizado pela Coca-cola. Até ai tudo bem. Trata-se de uma circunstância simples e comum em vários setores.

Vamos ver como ficam as coisas no setor farmacêutico. Aqui as coisas são mais complicadas e sensíveis. Existem conflitos de interesses. Um fármaco qualquer demanda muito mais que uma simples combinação de reagentes químicos dentro de um tubo de ensaio. Um fármaco é resultado de pesquisas dispendiosas e complexas, envolvendo anos de análise dos efeitos desejáveis e indesejáveis de seu princípio ativo. Em outros termos, um fármaco não é apenas um simples sub-produto da Ciência Fundamental, mas é parte integrante do próprio processo gerador de conhecimento. É aqui que surge a polêmica e, do ponto de vista do progresso técnico-científico, no médio e longo prazo, a análise também não pode ser simplista, passional ou puramente financeira. 

Do mesmo modo que os fármacos, em inúmeros outros setores de tecnologia de ponta, incluindo o setor de “hardware” e “software” a pesquisa também vem sendo financiada pela iniciativa privada e o conhecimento gerado mantido restrito. Mas é bom lembrar que o ponto de partida desse desenvolvimento posterior na indústria é quase sempre a Ciência Fundamental de domínio público. Como se vê, as coisas vão ficando cada vez mais emaranhadas e difíceis de serem delimitadas com clareza.

É claro que não estou propondo que as empresas coloquem a disposição pública toda a sua base de conhecimentos e segredos industriais. Mas é preciso um certo cuidado com o equacionamento e controle das coisas.

Por este motivo, acho que todo conhecimento, como o Linux por exemplo, gerado em bases abertas e acessíveis a todos é de fundamental importância. Mas agora chegamos ao outro lado da questão. O Linux e outros Sistemas Abertos não são mais apenas Sistemas Operacionais Alternativos. Significam muito mais que isto. Significam, principalmente, toda uma base de conhecimentos de domínio Público. Não se trata mais da mera liberdade individual de escolher este ou aquele “sabor” de Linux. O que existe agora é a perspectiva real e concreta de manter livre a própria informação e conhecimento.

Neste cenário, não se pode mais admitir atitudes passionais. É hora de muito profissionalismo e objetividade. É hora de começarmos a pensar com maior ênfase em conceitos mais universais e democráticos. Esse assunto vai longe e acho melhor parar por aqui, mas é importante que o “open source” e o “open-mind” caminhem sempre juntos de modo equilibrado e racional.

Voltando ao CL10, posso dizer que o sistema é enxuto, com menus bem organizados e objetivos. O KDE é uma interface muito boa e amigável, permitindo que em pouco tempo o usuário recém chegado já esteja realizando sem dificuldades as tarefas de rotina. O grande problema é a configuração de alguns itens como o modem, o som e o scanner.

O som só funcionou após uma maratona de tentativas e erros. Fiquei inclusive sem saber ao certo qual era o problema. Aqui fica a pergunta: Com tanto “how-to” circulando por ai, custava a Conectiva colocar um adequado ao seu sistema junto com a instalação? Bastava um arquivo “html” e um ícone com o título – “Como configurar o CL10”. Pronto! Acho que 95% dos problemas poderiam ser resolvidos com isso.

Para o modem o problema é pior ainda. Não se pode mais admitir que o usuário comum seja obrigado a sair por ai atrás do código-fonte do driver para ser compilado. Isso me faz lembrar um pouco de meus primeiros e poucos programas Fortran que fiz na faculdade - eram todos em cartão perfurado.

Compilar programas pode ser muito interessante para o aficionado, mas para um usuário novo e sem experiência é uma dificuldade desnecessária e meio antiquada, podendo ser até um belo cartão vermelho. Se existe código-fonte tem que existir também um mínimo de bom senso e sensibilidade para colocar o binário acessível ao usuário. Afinal de contas, a Conectiva é uma empresa e não uma distribuição pequena de iniciativa pessoal. O fato de estar disponível gratuitamente para “download” não justifica esse descuido. Todos esses aspectos fazem parte da imagem de um produto e de uma empresa.

Para encerrar nosso papo com o CL10, vale registrar que os dois live CDs do CL10 também estão com problemas. Experimentei-os em duas máquinas diferentes, na mais nova com video Nvidia de última geração não rodaram (o Kurumim roda). Na mais velha com video SIS ambas rodaram, mas a versão Gnome parece uma carroça sem rodas e as demais interfaces gráficas estão com várias opções de menu quebradas. A versão KDE rodou normalmente na Sis, e dá uma boa mostra da versão normal do CL10.

Algumas das mensagens que recebi expressaram decepção com a Conectiva e me aconselharam a procurar uma distribuição melhor, como o Mandrake, por exemplo. Sem querer parecer indelicado, eu já experimentei inúmeras distribuições e, exceto por alguns detalhes, as dificuldades são essencialmente as mesmas em todas elas. No meu entender, a competição entre as várias distribuições é saudável, mas não deve de modo algum resvalar para o lado de uma guerra ou disputa acirrada entre comunidades. Isso seria péssimo para o Linux.

Se fizermos uma reflexão imparcial, fria e puramente técnica sobre o Linux, veremos que existe um  leque enorme de possibilidades. A liberdade de escolha do ambiente gráfico e a flexibilidade de personalização do sistema são fantásticos. Mas é preciso ter em mente um conceito fundamental e absolutamente essencial para o futuro - O sistema precisa ser fácil, amigável e autoexplicativo. Acho que é dentro desta filosofia que se deve buscar um padrão. A padronização em torno de um conceito. Não importa qual seja o sistema. Pode ser o Conectiva com o KDE, o Mandrake com o Gnome, o Slackware com o WindowMaker, tanto faz. O que importa é que em todos eles seja possível ao usuário configurar e personalizar o sistema de modo rigorosamente fácil, amigável e autoexplicativo sem precisar recorrer a um único “how-to”. Isso sim seria uma bela revolução.

O segundo nó a ser desatado é a instalação de programas. Aqui também a liberdade de sair pela rede baixando pacotes e instalá-los com um simples clicar do mouse sem precisar se preocupar com dependências e compatibilidade de pacotes  é de suma importância.

Se esses dois conceitos forem colocados em prática o Linux será imbatível. Note-se que são conceitos e não uma fórmula padrão que obrigue as distribuições a terem a mesma cara. É como ocorre no setor automotivo. Cada marca e modelo de automóvel tem sua personalidade e características próprias, mas o conceito de dirigir é exatamente o mesmo para qualquer marca, modelo e ano de fabricação.

Felizmente, parece que esses conceitos já estão pulsando em muitas cabeças da comunidade. O Knoppix inovou e vem evoluindo nesse sentido. No Brasil temos o Kurumim, um belo trabalho do Carlos Morimoto do Guia do Hardware. No mesmo time temos também o Kalango e o BigLinux. Acho que o caminho está aberto. Basta segui-lo aprimorando cada vez mais os conceitos de simplicidade, praticidade e elegância. Essa é a equação do futuro – SIMPLES, PRÁTICO E ELEGANTE.

Difícil ? Depende ! Se todos trabalharem de mente aberta, sem preconceitos, sem revanchismo, sem comparações passionais inúteis, usando de modo objetivo a imaginação, a autocrítica e a liberdade de criar, o céu é o limite.

Cesar Boschetti - 29/08/2004

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