O primeiro passo
O ato de acender uma
lâmpada ou mesmo acionar um LASER capaz de cortar uma chapa de aço em segundos, parece
brincadeira de criança. São coisas que até um cão treinado pode fazer com facilidade.
A energia em suas várias formas, faz parte de nosso cotidiano. Acionar o motor de um
carro ou ligar o forno para assar uma pizza são coisas, absolutamente, corriqueiras.
Seria difícil, senão impossível, imaginarmos a vida moderna sem essas coisas. Mas o
caminho percorrido pelo ser humano até chegar à essas facilidades, foi longo, muito
longo.
Nossos ancestrais levaram milhares e
milhares de anos para conseguir o domínio do fogo. Não foi uma tarefa fácil. O ato,
"ridiculamente simples" de acender um fósforo, representa a luta e esforço de
milhares de indivíduos ao longo de milhares de anos. A determinação cronológica
precisa e as circunstâncias exatas em que se deu esse grande passo da humanidade não é
possível. É provável que não tenha sido um evento isolado. É mais plausível supor
que o domínio do fogo tenha sido conquistado e perdido várias vezes ao longo das
gerações e, em lugares e circunstâncias diferentes.
Isso não importa. Num sentido mais amplo
podemos, perfeitamente, retratar essa grande conquista pela estória de Uga, "O Deus dos Macacos". A luta do homem com a
natureza hostil e contra seus próprios temores do desconhecido, deve ter sido fenomenal.
Não fosse a coragem ou curiosidade de um Uga ou, quem sabe, um raio fortuito, é quase
certo que você não estaria hoje lendo essa página em seu computador. É provável
inclusive que você sequer existisse ou fosse ainda, apenas um outro Uga, ou talvez nem
isso.
Foi o fogo que deu ao homem pré-histórico
o poder de realmente dominar outros animais. Foi graças ao fogo que o homem pode sair de
seu ninho seguro para desbravar o planeta. Foi o fogo que permitiu ao homem sobreviver aos
rigores do tempo. Foi o fogo que permitiu ao homem desenvolver uma tecnologia, fundir
metais, vidros e cozer alimentos. Sem o fogo, continuaríamos eternamente na
pré-história ou, quem sabe, teríamos sido simplesmente extintos por animais mais fortes
e adaptados ao meio.
Parece estranho, quase um
absurdo, que uma simples tocha de madeira tenha feito tamanha diferença.
Mas é exatamente esse o ponto. São as pequenas diferenças que fazem o
grande mistério do Universo.
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A
região, ampla e normalmente tranqüila, era rica em caça miúda. As
grandes feras quase não se aproximavam do local, protegido por encostas
íngremes que se estendiam pelos dois lados da caverna. Numa extremidade
da encosta e não muito longe ficava a grande água. No outro extremo,
achava-se a mata, densa e fechada. Eram árvores enormes, entremeadas por
arbustos e cipós espinhentos que também se estendiam até a grande água
pelo lado oposto. O cenário era belo e tranqüilo. A natureza criara ali
um paraíso seguro e confortável. Uga nascera ali. Aquele era seu mundo e
seu povo.
Por vezes, movidos pela
curiosidade, Uga e mais alguns machos mais ousados, avançavam um pouco mata a dentro.
Havia em meio ao emaranhado de cipós e espinhos, algumas aberturas que eles conheciam
bem. Elas conduziam ao outro lado da floresta, que se abria em uma planície vasta a
perder-se de vista. Lá o grupo já havia se defrontado com animais perigosos. Havia
inclusive alguns indivíduos parecidos com Buga, amigo inseparável de Uga. Buga era forte
e alto, destacando-se do resto do grupo, mas não discutia a liderança de Uga, ao
contrário, sempre mostrara-se tranqüilo e submisso. Mas aqueles outros indivíduos eram
muito mais peludos e pareciam bem mais fortes que Buga. Havia um certo respeito entre os
dois grupos. Já haviam se defrontado algumas vezes, nas quais o grupo de Uga saíra
vitorioso, graças aos tacapes de pau e as lascas de pedra cortante. Uga achava estranho
aqueles indivíduos não usarem tacapes nem lascas de pedra, mas ao mesmo tempo sentia-se
feliz e seguro por isso.
Desde pequeno, Uga aprendera a selecionar cuidadosamente os galhos
quebrados e secos de madeira dura. Estes eram cuidadosamente raspados com pedra até
adquirirem a forma e peso adequados. Era um longo processo aos quais todos os machos se
dedicavam com veneração. As lascas de pedra também precisavam ser cuidadosamente
escolhidas ou extraídas da encosta rochosa. Era um trabalho permanente que ocupava boa
parte do tempo em que Klep permanecia no céu. O resto do tempo era dedicado à caça e
aos rituais de se coçarem uns aos outros em busca de parasitas.
Mesmo munido de tacapes, Uga sentia que não poderia se aventurar muito
além do seu pequeno paraíso. O mundo além da mata já dera provas de perigo e parecia
não oferecer esconderijos seguros. Era isso que o atormentava. A grande água estava
encolhendo, expondo passagens antes inacessíveis. A mata, fechada e densa, estava agora
semi ressequida e cheia de aberturas que se ampliavam cada vez mais. Os grandes animais do
outro lado começavam a descobrir essas passagens e vinham em busca da água e caça. Isso
era extremamente perigoso. Uga e seus companheiros, haviam até aquele momento conseguido
vencer os intrusos que cada vez chegavam mais perto da caverna.
A grande caverna, normalmente fresca, parecia agora sem ar, como se
este tivesse sido expulso por Klep. A parede ao fundo era recortada por reentrâncias
escuras e recobertas por um limo aveludado e úmido. Do lado esquerdo havia um fenda um
pouco maior, quase na junção com a parede lateral. Essa fenda descia até perto do
chão, onde desaparecia por trás da ponta de um enorme bloco de pedra. Esse bloco, que
ocupava toda essa lateral da caverna, parecia ter se destacado da parede, inclinando-se
para frente. Em ocasiões em que a frequência de Xuhá era maior, água pura e fresca
escorria por aquela fenda. Fora Uga quem notara isso primeiro, pois a água escorria na
forma de um filete que serpenteava pela fenda de modo silencioso e invisível, para em
seguida sumir no canto próximo ao chão. Esse lado da caverna praticamente não era
utilizado, o chão muito acidentado e a parede inclinada não ofereciam conforto para se
recostar. Os companheiros de Uga quando não estavam em busca de comida, passavam a maior
parte do tempo se coçando uns aos outros ou trabalhando seus tacapes, alheios ao mundo.
Uga era um hominídeo comum, seu aspecto físico não tinha nada de
especial comparado ao restante do grupo. Sua personalidade talvez guardasse algumas
particularidades, mas muito sutis para que ele próprio ou o grupo a notassem. Uga não se
furtava aos rituais do grupo. Gostava da caça, dos passeios de exploração e da higiene
grupal, mas por vezes preferia manter-se um pouco afastado, contemplando as coisas ao seu
redor. Isso também não chegava a ser algo estranho, seus companheiros por vezes faziam a
mesma coisa. Uga porém, costumava ser contemplativo com mais freqüência e demora.
Passava horas olhando cada detalhe e cada reentrância da caverna, os insetos que com ele
dividiam o mesmo espaço, o limo das paredes. As coisas não lhe faziam muito sentido.
Seus olhos rodavam de um lado para outro como se buscassem algo novo nos detalhes que já
contemplara dezenas e dezenas de vezes. Chegava às vezes a se levantar para tocar uma
lasca de pedra ou uma folha trazida pelo vento, talvez na esperança de encontrar um
alívio para aquele desconforto que lhe perturbava a mente. Era uma sensação estranha,
sem sentido, como se algo invisível estivesse a lhe chamar. Invariavelmente acabava
vencido pelo cansaço inexplicável e dormia.
Foi em uma dessas vezes que Uga descobrira o filete de água na fenda.
Nesse dia ele experimentou uma emoção que jamais havia sentido antes, uma sensação de
poder inexplicável. Não era o regozijo pela água, pois esta nunca lhe faltara. Era a
descoberta em si que lhe inspirava aquele sentimento e emoção. Era como se Xuhá
houvesse lhe transferido parte de seus poderes. Foi esse fato que deu a Uga a liderança
do grupo. Seus amigos passaram a vê-lo como um protegido do Deus e a respeitá-lo por
isso. Mas agora Xuhá parecia tê-los abandonado. Uga sentia suas forças se esvaírem e
sua fé em si próprio estava abalada. Sentia-se um pouco culpado. Talvez tivesse feito
algo que desagradara ao Deus das águas. Não conseguia imaginar o que pudesse ter sido e
isso o torturava mais ainda.
O grupo ainda permanecia unido, pois, instintivamente, percebiam que
essa era a única forma de poderem vencer os intrusos e sobreviverem. Mas os ânimos
andavam péssimos, as brigas eram constantes e Uga já estava começando a perder o
controle. Sua autoridade estava sendo posta em dúvida. Era exímio caçador e hábil no
manejo do tacape, mas isso não era o bastante para o grupo. Buga também era hábil e bem
mais forte, assim como alguns outros. Felizmente para Uga, apesar das adversidades, Buga
mantinha-se fiel amigo. Isso lhe trazia certo reconforto.
Uga desejava a volta de Xuhá, seus instintos lhe diziam que isso era
necessário, mas ao mesmo tempo tinha medo. Era um medo que Uga conhecia muito bem, já o
experimentara várias vezes antes. Xuhá invariavelmente brigava com Klabum, que na ira
lançava do céu acinzentado enormes tacapes de fogo. O barulho era ensurdecedor e
reduziam o alvo à uma massa negra e disforme. Claro que todos tinham medo de Klabum e o
respeitavam. Mas no caso de Uga a coisa era diferente e ele sabia disso. Uga sentia medo e
ao mesmo tempo uma atração quase irresistível pelos tacapes de fogo. Por vezes chegara
a sentir um impulso quase incontrolável de ir ao encontro deles. Isso o apavorava ainda
mais, pois sabia que se ousasse empreender tal façanha, seria morte certa. Uga não
entendia aquela atração sem sentido pelos tacapes de Klabum. Algumas vezes seu íntimo
parecia dizer-lhe que, da mesma forma que Xuhá, Klabum também queria agraciá-lo com
poderes. Noutras, tamanha era a fúria do Deus, que Uga tinha a sensação nítida e clara
de estar sendo chamado ao castigo pelos desejos heréticos e absurdos.
Foi justamente no torpor desses delírios que Uga foi bruscamente
acordado. O estrondo foi fenomenal. Uga não sabia há quanto tempo estivera imerso
naquele transe sufocante. Apesar de escuro, tinha certeza que ainda era dia, seus
instintos lhe diziam isso. Klep havia sumido do céu, agora totalmente recoberto por
manchas quase negras e ameaçadoras. Klabum urrava de modo ensurdecedor e medonho. Seus
tacapes de fogo caiam ao longe, bem para além da grande água. Desta vez parecia que
Klabum viera sozinho, sem a companhia de Xuhá, dando a impressão de estar ainda mais
irado por causa disso. Seus tacapes faiscantes caiam sem parar e cada vez mais perto. Uga
postara-se estarrecido e imóvel à entrada da caverna. Mal saíra de um transe para cair
em outro, desta vez muito mais poderoso. A cada ribombar de Klabum, o chão tremia. O
grupo todo já havia saído daquele torpor sonolento e se amontoavam uns sobre os outros,
estarrecidos com a figura absurda de Uga na entrada da caverna.
Foi nesse momento que uma faisca atingiu o monte de tacapes e resto de
galhos secos próximo à caverna. A intensidade da luz deixou Uga cego por um instante. O
estrondo foi tão forte que o lançou violentamente para o fundo da caverna, deixando-o
atordoado. Seus amigos não ousaram socorrê-lo, pois julgavam tratar-se de um castigo do
Deus e se encolheram mais ainda. Ainda zonzo e como se estivesse a desafiar Klabum, Uga se
levanta, permanecendo imóvel a observar o fogo que ardia a poucos passos da caverna. Um
sentimento estranho se apoderara dele. Algo que lhe escapava à compreensão, como se uma
força mágica tivesse tomado conta do seu ser. Sua cabeça latejava como se estivesse
prestes a explodir. Não sabia se estava sonhando ou se estava acordado, de repente,
pareceu-lhe que o mundo deixara de existir.
O grupo em volta não ousava interferir no seu transe, julgando-o
tomado pelo demônio do fogo. Uga não conseguia ver nada além daquela chama demoníaca
que dançava a sua frente e parecia puxá-lo. Os estalidos da madeira queimando soavam
como trovões em seus ouvidos, pareciam marcar um compasso de tempo, uma cadência sem
sentido onde, a cada explosão imagens desconexas de animais amedrontados e cavernas de
paredes brilhantes surgiam em sua mente.
Movido pelo impulso incontrolável e mágico, começou lentamente a se
mover em direção ao fogo. Cada passo lhe parecia uma eternidade. Era um misto de
fascinação alucinada e pavor entorpecente. A cada novo passo, o pavor ia cedendo lugar
à fascinação mágica. Lentamente foi se aproximando até que se deu conta de estar
praticamente ao lado da fogueira. Podia sentir o calor suave do fogo, percebendo que o
mesmo não queria lhe fazer mal. Reconheceu seu tacape em meio aos outros já quase que
totalmente consumidos. Estava ainda quase inteiro, só com a ponta dominada pela chama
bruxuleante. Foi lentamente se abaixando até tocar o cabo do instrumento. Estava apenas
morno como costumava ficar quando exposto ao calor de Klep. Podia segurá-lo sem o menor
perigo. Ajustou sua mão a ele, apertando-o firmemente e erguendo-o sem pressa. Já em pé
não se conteve. Seu sentimento de poder era imenso e não cabia mais em seu peito. Soltou
um urro, um brado de vitória que jamais se imaginara capaz. Era um Deus!
[Cesar Boschetti - Brasil
(Mar/2000)] |